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pequena nota biográfica dos autores
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Gênero Crítica Literária Capa Brochura Formato 20,5 x 14,5 Páginas 150 Preço R$ 15,00
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Mauro Ventura Talvez nenhuma cidade do mundo tenha tantos cronistas por metro quadrado, tantas pessoas dedicadas a enaltecer suas virtudes, apontar seus defeitos, celebrar seus encantos, registrar sua história, revelar suas belezas encobertas e combater o baixo-astral que por vezes tenta baixar na alma carioca. O Rio largou com vantagem na loteria do mundo, ao unir mar e montanha. É uma cidade que convida à caminhada e estimula o contato físico. Mas a paisagem carioca não explica sozinha o status privilegiado que a cidade desfruta entre os cronistas. O fato de ter sido capital do país durante 320 anos e de ter sediado um reino europeu também ajudou. E o carioca fornece igualmente material inesgotável para os escritores, com sua capacidade de fazer graça até da desgraça, seu espírito boêmio, sua "recusa quase carnívora a se levar muito a sério" e sua "joie de vivre que desafia os argumentos mais racionais", como diz o escritor Ruy Castro no livro "Carnaval no fogo - Crônica de uma cidade excitante demais". A expressão crônica carioca é quase uma redundância, tantos os cronistas, nascidos aqui ou não, que imortalizaram a cidade em seus escritos - do capixaba Rubem Braga e do baiano João Ubaldo Ribeiro ao mineiro Fernando Sabino e ao pernambucano Manuel Bandeira. Há quem diga que a crônica carioca está morrendo, vitimada pela violência que afasta as pessoas das ruas, confina os moradores em seus bairros, aparta a cidade e transforma a hospitalidade em hostilidade. Afinal, a crônica vive dos tipos da cidade, das cenas curiosas do cotidiano, dos papos de botequim, dos diálogos pitorescos, dos encontros do dia-a-dia - enfim, da vida que vemos fluir a cada instante nas ruas. Sem a comunhão necessária, deixando de ser convidativa, tornando-se menos desejada, a cidade não inspiraria mais textos - e canções, quadros e filmes. É uma afirmação arriscada. Há uma ligação estreita, indissolúvel, entre o Rio e a crônica. Como todo relacionamento, sofre desgastes, passa por altos e baixos, enfrenta períodos turbulentos. É verdade que É de Joaquim, aliás, uma das melhores definições para o gênero: "Crônica é uma literatura de bermudas." Ou seja, bem apropriada a uma cidade mais convidativa ao traje informal que ao smoking, mais afeita à descontração que à pompa e à cerimônia. Assunto não falta. Afinal, observa Ruy Castro, morre-se de muita coisa no Rio, menos de tédio. Um exemplo? Não se passa um minuto sem ser importunado por um entregador de folheto, um menino de rua, um flanelinha ou um mendigo - mas a vantagem é que isso pode se transformar numa crônica. Já disse a professora Beatriz Resende: o cronista é o confidente de nossas pequenas reclamações, cúmplice de nossas revoltas, solidário em nossas perdas. Se os cronistas devem muito ao Rio, é igualmente verdade que a cidade tem uma dívida com a crônica. Quem se debruça sobre a memória da cidade não raro recorre a ela atrás do registro de uma época. Gênero muito democrático, a crônica assume neste livro várias formas. Cada cronista tem sua maneira particular de se relacionar com o Rio. Lima Barreto faz de sua "pena um compromisso fiel de amor e denúncia perante sua cidade", como escreve Raiff Magno. O cronista-poeta Manuel Bandeira "revisita, emociona-se e saúda constantemente o Rio de Janeiro de outro tempo", nas palavras de Anna Paula Lemos. João do Rio está "empenhado em revelar a miséria, a dor, a impossibilidade, a doença e diversos outros aspectos escondidos pelo mito da modernização", como diz Hudson dos Santos Barros. A discussão entre tradição e modernidade também está em Machado de Assis. "A imagem que surge de suas crônicas é a de uma cidade e uma sociedade que, embora atrasadas e atoladas em um universo cultural provinciano, esforçavam-se por não perder o bonde do progresso", observa Mariana da Silva Lima. No caso de Rubem Braga, "o Rio de Janeiro de suas crônicas é cidade amada por ter sido vivida intensamente", como analisa André Vinícius Pessoa. Carlos Drummond de Andrade também revela a delicadeza escondida em uma cidade "tão cheia de beleza natural, mas tão distante do desejo de preservar seus encantos". Como percebe Lívia Lemos Duarte, "Drummond preza a manutenção dessa beleza, mantendo com a natureza uma relação de profunda solidariedade". Para Vinicius de Moraes, observa Joel Theodoro da Fonseca Júnior, "a cidade que valia a pena era a carioca, malandra, amiga, inebriada, devagar, praiana, calorosa, tórrida, preguiçosa por escolha e não por azar". Luanna Belmont, que captura a Clarice Lispector cronista, aponta o recolhimento e a tendência introspectiva da escritora em seus textos para jornal. E Luciane Said, que focaliza João Ubaldo Ribeiro, nota como "autor e cidade se confundem em suas 'personalidades', permitindo, ao primeiro, compreendê-la e exibi-la em toda sua formosura e indignidade, e, à segunda, acolhê-lo, atiçá-lo e inspirá-lo". Como se vê - ou se lê neste livro - a crônica é o gênero literário que melhor traduz a cidade. A leveza, o lirismo, a descontração, a despretensão, o humor e a coloquialidade encontram aqui terreno fértil. Se o samba é a voz da cidade, a crônica é sua escrita. |
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Fred Góes A iniciativa desses nove jovens mestrandos de publicar ensaios sobre cronistas, tendo o Rio de Janeiro como referência, é “louvabilíssima”. O gesto, se, de um lado, atende às expectativas acadêmicas de um corpo discente em processo de pós-graduação, isto é, apresentar produção intelectual e publicá-la, do outro, ultrapassa esse limite, ganhando dimensão política como, se com a reunião desses textos, os ensaístas nos quisessem dizer, por mais vilipendiada pelas instâncias governamentais que esteja a cidade, por mais que se a tenha tentado tornar sinônimo de violência, por mais que se insista em transfigurá-la, ela foi, é e será sempre a musa do cronista brasileiro. Pela seleção dos autores fica evidente que ser carioca, mais que um estado de espírito, é um estado de linguagem. Os cronistas escolhidos, não importa a origem natal, ao porem em foco a vida cotidiana, os fatos circunstancias, as miudezas poéticas da cidade, se alçam na privilegiada posição dos cariocas que dão voz à cidade. Ela fala através deles. Ler essa reunião de ensaios é revisitar a cidade desde os finais do século XIX aos nossos dias. É se dar conta de que apesar dos tantos “bota abaixo”, “liftings”, e “aplicações de botox” de que foi vitima, jamais perdeu a soberania. Afinal, é a única cidade das Américas que um dia foi capital metropolitana do reino. Mais que isso, o que se percebe é que a escritura da crônica acompanhou, no seu processo produtivo, as transformações da cidade, se impondo mais e mais como espaço de experimentação poética, sempre capaz de se adaptar aos novos suportes de mídia, sejam periódicos, rádio, televisão ou os recursos das mídias computacionais. Talvez essa capacidade mutante da crônica seja mesmo de ordem genética já que seu texto é trama tecida com fios de história e de estória. E não só nas folhas dos jornais se realizou a crônica da cidade. Muitos letristas da canção popular cantaram o Rio em crônicas musicadas. Quem melhor que Noel Rosa retratou a cidade que se verticalizava nos anos 30, como em “Três Apitos”? Quantas marchinhas de carnaval pontuaram criticamente a vida da cidade ano a ano? Seja em verso , seja em prosa , a cidade segue atraindo os olhares ora atentos, ora perplexos, ora aterrorizados mas sempre apaixonados de quem a cronica . Eu , da minha parte, concordo em número e grau com meu parceiro musical, o baiano Moraes Moreira, ao afirmar, cantando o Rio: “ meu coração bate e apanha entre o mar e a montanha”. |
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