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Carta de fundação da coleção Portugal,0

Carta de fundação da coleção Alfa

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Carta de fundação da coleção Portugal,0

 

 

 

A poesia portuguesa tem vários séculos de vida. É uma história longa, dotada de um passado tão forte como presente. A poesia portuguesa, de tanto passado, também tem presente. Vários séculos e novos séculos: séculos novos, poesia nova, um poético Portugal em estado de fundação. Portugal, pois, em estado zero, Portugal, 0. Aqui, assim, o cabimento de se olhar a poesia nova portuguesa, a necessidade, a premência. Porque esta poesia não é apenas nova, ela terá, por ser quem é, vários séculos de vida, e terá seu passado em situação de grande novidade. Portugal, 0, Portugal desde sempre em estado de fundação.

São poetas de agora, vivos e jovens, os que vêm nesta coleção. Poetas que estréiam no final do século XX, invadem, viçosamente, o XXI, lêem sua história e a ela dão prosseguimento. A Portugal, 0 interessa a ponta-de-lança, um presente cheio de tradição e de coisas frescas. E interessa também dar ao leitor brasileiro, afastado de tudo o que este poético Portugal vem escrevendo, o conhecimento desta rigorosa novidade, nem tão estranha assim àquilo que nossos olhos, nossas angústias e maravilhas costumam experimentar.

Que venha Portugal, 0, e que tenha longa vida, pois esta poesia, de séculos e de agoras, vida longa tem e terá.

 
     
 
Carta de fundação da coleção Alfa

 

NOSSA AURORA VIRÁ

Cuida da flama, até que possamos despertar novamente, seguros.


A flama está em nossas mãos, a confiamos a ti, este nosso demônio sagrado da ingovernabilidade.


Cuida da flama e descansaremos em paz.


Criança, sê estranha, obscura, verdadeira, impura e dissonante.

Cuida da nossa flama.

David Rudskin

 

Das muitas corrrentes de crítica ao capitalismo surgidas a partir do século XIX, é a tradição anarquista que consegue ser simultaneamente a mais radical em suas ambições, a mais romântica, a mais intransigente em seu entendimento da realidade do capitalismo. Estes extremos têm várias consequências, das quais a pior talvez seja a mistificação da teoria anarquista, entendida ora como afeto infantil e destrutivo pela desordem, ora como uma ideologia utópica nada distinta de tantas outras, ora como uma contradição: o movimento anarquista seria estruturalmente contrário a uma toria. Esta confusão é quase que um atributo inseparável do movimento anarquista, e tem razões mais profundas do que a natural pluralidade e defesa da diferença das correntes de esquerda libertária.

Possivelmente, qualquer teoria anarquista precisaria dar conta desta resistência à definição, que fez, obviamente, parte do espírito do movimento. No entanto, há aspectos essenciais do movimento que poderiam, sim, servir de base para uma teoria. A resistência à autoridade ilegítima e à hierarquia, o ódio à tecnocracia, às estruturas de controle, à exploração econômica, , e, finalmente, o compromisso inscapável, ireedutível e tirânico com a utopia, aqui e agora. Falar de anarquismo é necessariamente  falar de luta pela utopia, do lugar político em que a liberdade e todos seus atributos estejam realizados: liberade de trabalho, opinião, afeto, movimento, erotismo, julgamento, expressão, etc. Toda discussão dos movimentos anarquistas gira em torno de possibilitar o surgimento de condições políticas, econômicas e culturais que permitam a manutenção de todas estas liberdades. O outro lado da moeda deste compromisso é a necessidade de crítica e resistência ao tipo atual de conformação da realidade que impede o surgimento destas condições.

A coleção alfa pretende dar uma pequena contribuição a este esforço através da publicação de textos que tenham pensado o homem e a realidade sob este prisma, o da liberdade como um destino humano, constantemente roubado, adiado, impedido, com consequências desastrosas. Nem todos autores a serem publicados pela coleção poderiam ser considerados anarquistas, mas todos contribuíram de alguma maneira para dar forma a nossa idéia de liberdade.