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Estréia de Luis Maffei como poeta, o livro "A" nos faz circular por seus temas preferidos, a música, a literatura, o prazer, o futebol, em uma delicada mistura de prazer e angústia, ironia e melancolia.

pequena nota biográfica do autor

Luis Maffei nasceu em Brasília, no ano 1974, e vive no Rio de Janeiro desde a infância. Além de poeta, é compositor e músico, autor, em parceria com Marcelo Gargaglione, do disco na mesma situação de blake (2005). Faz Doutoramento em Literatura Portuguesa na UFRJ, onde foi professor desta disciplina. É também crítico literário, com artigos publicados em diversas revistas especializadas.

 

leia o prefácio de Luís Carlos Patraquim

 

leia a contra-capa por Eucanaã Ferraz

 

 

Gênero Poesia

Capa Dura

Formato 19,5 x 14,0

Páginas 100

Preço R$ 15,00

 

 

 

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Paratexto flanando de parapente

Luís Carlos Patraquim

 

O tal de prefácio que o Luis Mafei me pediu cabe aí, nessa definição de G. Genette, porém meu prefácio desconsegue de ser. Nonada mesmo, o que quer que a famosa interjeição signifique. Olho esta careca descoroada de rosas e não tem jeito. Só dá para bate-papo epistolar. E as vozes me apavoram, todas elas, as grandes de um Brasil inteiro, do “Boca do Inferno” ao da Costa e Silva, de Machado a Oswald, – o Jorge de Lima, meu deus! –, do homem do teclado de piano ao cabeça baixa funcionário público. Um team inteiro onde ninguém fica no banco, só os lesionados definitivos. E o Ruy Espinheira e o gajo de Macau, o meu saudoso Mário Quintana e que Pedro Lyra me perdoe a enumeração caótica de movimentos, escolas, cronologias. Mais as omissões. Mas disso é essa imensa terra de Vera Cruz que tem responsabilidade. E os irmãos Campos e Décio? O cavalo se arrelincha como Dom Egas ante o abismo.

Me perdoem de não dizer mais nomes que, qual alfaiate presunçoso, estou tirando medidas a este meu amigo carioca Luis Maffei. Minha balalaica tropical estilada em bóer de pouco lhe servirá mas foi ele quem insistiu. Mal sabe o poeta desta banca de vão de escada com fita métrica já roída e chumaços em liquefacção. Sorte que este meu-chapa-pois-não se apresente em seu livro de estreia vestido de boa fazenda. E se pus Genette de supetão é só pechisbeque de camelot, ali para as periferias de São Cristóvão antes do jogo do Vasco no Domingo.

Que pode um desgarrado Índico índio, a pé boto na insaudosa antiga metrópole, discorrer sobre a nova poesia brasileira, onde é logo tentação tentar colocar quem se apresenta ao pelotão? Ainda, dir-se-á em português moçambicano. E nem isso se intenta.

Luis Maffei é só ele mais sua “anomalia poética”, como em luminoso e recente ensaio se refere a lusa Silvina Rodrigues Lopes. E cito-a porque ela é também, tal como o Luis, uma estudiosa da obra desse imenso Herberto Helder que vocês começam a conhecer. Anomalia como outro lugar – mais do que o já quase cliché “não-lugar” – avesso a mercados, desbaratador de teorias literárias, coisas de leitor e de recepção, tradições e gostos. Escreve a ensaísta: “Na arquitectura de um poema disseminam-se pontos de resistência, pontos de decisão, que o tornam inseparável do fazer em que se origina (nesse sentido ele é biográfico, e anti-biografista, evidentemente). Aí é também quem escreve (não um autor-medium, nem um autor-identidade ou projecto, mas o ‘autor’ enquanto potência em acto) que resiste à dissolução no indiferenciado que são os discursos dos outros enquanto tais, enquanto moeda que circula, que se destina a circuitos pré-estabelecidos.”

Figuras tutelares – não por acaso o gerúndio “flanando”, vide o poema sobre Baudelaire; um in memoriam a Ricardo Luz com Ricardo Reis em subtil voz interior; a “pátria de chuteiras” em versos driblando a tragicidade desta nossa andarilhação pelo mundo que é vasto mas não rima; um beat e uma cesura que, bebendo na excepcional criatividade de tanta produção poética de aí, vai ao Blues e ao Jazz enrondilhar, com humor, os fios de uma nostalgia onde o “chega de saudade” não basta para a exorcizar. Humor, como dizia Oswald de Andrade, essa “prova dos nove” da poesia.

Paratexto sem parapente, me quedo fruindo este conseguidinho primeiro livro de Luis Maffei, tocado a várias vozes em demanda da própria – “Emma Bovary é você, seu bicha”, escreve ele imprecando essa evanescente noção de autor, pois só o poema-ele- mesmo é que vale, “luzes assim”, inacabadas, promissórias, a tensão erótica em paródica declinação de nomes e de mitos. Saravah.

 

Lisboa/Maputo, Abril de 2006

 
     
     
 

Contra-capa de A

Eucanaã Ferraz

 

Tratando do livro de estréia de Murilo Mendes, Poemas (1930), Mário de Andrade observou um aproveitamento “sedutor e convincente da lição do sobrerealismo”.

 

Quanto a mim, poderia dizer o mesmo do livro de estréia de Luis Maffei, no qual sobressaem certas sugestões surrealistas: dissonâncias de imagens, interpenetração de tempos, planos e formas, bem como certa atmosfera delirante. Mas é preciso observar que esta adesão ao onírico surge em tensão com uma linguagem contígua ao coloquialismo, ao acontecimento cotidiano, ao registro biográfico, à proximidade de fatos da cultura, como a música, o cinema, o futebol. E, diferentemente de Murilo, não há mística ou transcendência.

 

O diálogo de Luis Maffei faz-se diretamente com a moderna poesia portuguesa. Não por acaso, alguns poemas citam os nomes de Gastão Cruz, Adília Lopes, Herberto Helder, Daniel Faria, e dialogam implicitamente com outros, como o incontornável Fernando Pessoa. Interessa a Maffei menos os surrealistas ou o Surrealismo, pensado como estilo ou orientação estrita de uma escola, mas o direcionamento para a liberdade nos níveis da forma e do conteúdo, a excitação de uma linguagem eletrizada pela metáfora, os ritmos variados e seus choques, a abstração, a atmosfera.

 

Se o titulo deste livro – A – declara o lugar daquele que está no início, o aprendiz, portanto, o mais baixo na escala, ele também assume a posição forte do ato inaugural, fundador. Também diz-se A daquele que é o melhor. A é a nota máxima. Maffei é o aprendiz que desde já exibe a força dos que têm força, a audácia dos que vêm/vêem na frente. Nota máxima – A – para este livro, como um conjunto, e para muitos poemas isoladamente. Um deles: “Les demoiselles de Giverny, de Monet”, no qual, entre a dissolução de fronteiras entre tela e espectador e a simultânea lucidez que impede a dispersão, opera-se um sutil jogo de espelhamentos. É no difícil equilíbrio entre consciência, acuidade, imaterialidade, arrebatamento, sondagem, que se consolida este livro, aberto ao aberto.