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Gênero Poesia Capa Dura Formato 18,5 x 13,5 Páginas 84 Preço R$ 18,00
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Receituário da fênix: o corpo-cântaro de Roberta
Lilian Jacoto
Choro, luto: pedrarias. Os poemas do lacrimatório recolhem uma dor humana que não se vê mais por aí, talvez porque só a poesia reserve, hoje, um lugar e um tempo para a dor. É esse o ofício de Roberta Ferraz, com sua contemplação estética do luto, sem negá-lo como vivência aguda, ácida, sem subterfúgios: eis sua verdade amorosamente ficcionalizada. Na seqüência destes textos, a água da memória, “semiprecioso liquido”, vai se condensando à medida que as lágrimas vertem, e secam. É um luto do desengano amoroso, sempre mortal, e começa na densidade negra da hematita - um “ferrão puro dos olhos recolhido” na aprendizagem da dureza da pedra. Ser afinal água, pedra e palavra - no que cada uma recolhe como opacidade, são formas de buscar-se, também, no que cada uma tem, nalgum ponto que ainda não se conhece, de brilho e transparência. Preciosa, de fato, é a linguagem: são vocábulos ancestrais escolhidos num ritual de garimpo, como uma arqueologia que revela antepassados familiares e textuais. E ao enunciar que “o amor é um lento rastro para dentro”, o sujeito-lírico é o que se deixa ver na decantação das águas profundas desse lacrimatório-cântaro, nos humores escusos do corpo-poema, ainda muito líquido, informe: apenas veias, vãos, ranhuras - um sulco qualquer, afinal, onde se deposite a matéria subjetiva que se quer condensar, para que seja de si renovada, renascida. E portanto é a força do fogo (os poemas das brasas) que transforma, processa, queimando as cores frias desse luto, que do negro ao azul, pouco a pouco, se aquece. E de repente é como quando se olha um rio escuro estando já fora dele, verticalmente, como quem procurasse lá no fundo um cristal consumado. Surge então já a saudade daquele eu recolhido à sombra (porque a gente aprende a gostar da dor, apega-se a ela) - e dessa saudade vem o canto, irrompe orficamente. Pois nesse canto elegíaco de Roberta ecoam outros poetas, paixões de leituras de longas tardes, noites sem fundo: a com-paixão de Sá-Carneiro no seu ímpeto que hesita e amarga - amor esse que é dos malditos do tédio, da histeria consumada, do caos das sensações-palavras, da escrita de violência, luxúria e dilaceramento; ecoa, também, a surrealidade de imagens na retina da alma, na evocação de uma atmosfera de fumo e sombras de quem recorda e esquece coisas muito antigas, na mobília coberta de uma casa já desabitada, ou uma Belle Époque fantasmática, em que se reconhece uma ancestralidade que se confunde com os escombros da casa familiar esvaziada (a metáfora fermentada do sangue e das gerações). Essa casa é também a Lisboa a que se chega estrangeira, pelo ar, para ser refundada; encontra aí, enfim, um espelho que encerra o luto (como se, ver-se, vendo-se no espelho, fosse o gesto definitivo do renascimento, numa imagem que se quer novamente condensar: “só, escaldada na água/ primeira, só a fonte/ do terceiro olhar/ improvável / desata o luto e largarei minhas marcas”). Eis que então se assiste ao ofício das mênades (agora um sujeito lírico multiplicado), com a violência bárbara de seus ritos. Neles aparece o Dioniso que desentranhará - não sem dor - a videira no peito, em combustão. Distando daquele estágio mineral e líquido do eu-lacrimatório, a vida já se organiza na animalidade, na vegetação que agora pontua o cenário e que é também imagem desse novo eu retornado: “eu retomo o meu segredo”. No clímax dos ofícios menádicos - pura possessão erótica -, das enócuas verte-se enfim o sujeito como corpo desejante (“Corpo meu / meu horto”), e na redondeza ainda do vaso, agora seios e ancas desatam o medo e o sexo, com violência, beleza e sonoridade. Pela evocação de um feminino ancestral, andrógino e anônimo, revigora-se o canto, permite-se ao eu, enfim, reconhecer-se nos ofícios do corpo, como um outro e como o mesmo que, desde o início, se despejava: (“No teu gozo/reconheço-me/a outra ainda/eu”). Este livro é portanto um longo ritual de despejo, ofício e gozo, todo feito de palavras: que mais se pode esperar, afinal, da poesia?
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