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Em seu novo livro de poemas, Roberto Bozzetti cria uma pequena ópera que vai da crueldade à delicadeza, da ironia à melancolia, em uma reunião de vozes e imagens que tenta dar conta de um sentido que foge: talvez este eu fragmentado pela experiência, a sensibilidade, a memória, talvez algo ainda mais escorregadio, um outro. Como ferramenta e arma desta tarefa hercúlea, apenas o texto e a letra.

pequena nota biográfica do autor

Roberto Bozzetti, carioca de março de 1956, professor universitário, mora em Niterói desde 1979, atualmente em Mendes. Repele a
idéia de que qualquer das informações acima
tenha alguma coisa a ver com a misantropia
que ciosamente cultiva, achando mais razoável
atribuí-la ao parentesco com orangotangos, esses desde Darwin pelo menos, semelhantes e irmãos – embora não leitores, como talvez Baudelaire apreciasse. Tem muito orgulho também, do parentesco com os bonobos, embora o máximo que tenha conseguido de próximo seja ter sido binubo.

Já com os chimpanzés não percebe maior
afinidade, muito menos com os gorilas, estes,
coitados, pelas associações malevolamente feitas entre suas pessoas e os poderosos fardamentos usados no período de ditadura militar durante o qual cresceu.

Não se interessa por fazer novos amigos – novos
leitores sim, embora não saiba se vale a pena o
esforço. Mas gosta de gente em livro, mais até
do que em fotografia ou filme. Além de gostar
esteticamente do que vale a pena – só não vale é
perguntar o que, por exemplo – tem como ídolos no mundo real Zé Trindade, Tião Macalé e Zé Bonitinho. E lamenta muito não ter encontrado ainda nada de Ivon Cury disponível na internet em mp3.

Não acredita em nada, por princípio. Nem no
que lê e muito menos no que escreve. Não lê o
que escreve.

leia o prefácio de Ana de Alencar

 

 

Gênero Poesia

Capa Dura

Formato 18,5 x 13,5

Páginas 174

Preço R$ 30,00

Acompanha um CD com a leitura pelo próprio poeta do poema longo "Firma Irreconhecível".

 

 

 

 

 

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A mão de Bozzetti

Ana de Alencar

Das sete seções que compõem esse novo livro de Roberto Bozzetti, autor publicado, pela segunda vez, sob o aconchegante selo da Oficina Raquel, a última traz o longo poema-título: “Firma irreconhecível”. Título preciso. Haveria outro nome para um texto que, de tão polifônico, heterogêneo, e extenso, parece se recusar a qualquer título?

Na circularidade do tema da assinatura – toda assinatura pede uma contra-assinatura – esse poema-canto, prismático, espécie de serpentina paratática que encerra o volume, remete o leitor ao começo, à questão da autoria, do nome próprio e da (não) origem. Firma, tomado em 1844 do vocábulo inglês firm, “assinatura” (desde 1574), tornara-se “razão social (1744), “casa de comércio”. O Littré ainda encontra um sentido medieval para o termo de firma: “convenção com garantia”. Seria a poesia convenção? Aqui teríamos uma chave para observar que a diversidade, a desenvoltura e a irreverência com a forma fixa, o ritmo, e o vocabulário de recursos poéticos garantem à escrita de Bozzetti uma reflexão a respeito do próprio sentido da convenção.

Outra chave, Firma como “assinatura”, já se encontra, na primeira das sete seções, nesses “Bosquejos”, apresentação metalingüística do que se busca no livro, uma escrita que persiga uma dicção do inacabado, que se encontre nesse inacabado: júbilo e crítica de sua própria dicção. Espalham-se, por todo o livro, as reverberações desse júbilo e do tratamento erótico dado à mão que escreve, que desenha, que rege, trazendo (ou não) o gozo. A autoria na imagem da mão que escreve (o próprio nome Bozzetti significa “resumos”, “sínteses”, ou “traços [...] que antecedem o processo de criação”) encontra tradução pertinente nas artes plásticas: “esbocetos”. A questão é ser a mão que, a bosquejar, tracejar, delinear, entremostrar, há de ser a mão, condenada enfim, a escrever nesse estilo para que dela saiam os bozzetti apuradíssimos de Bozzetti.

Acresce-se às qualidades desse livro, o extremo tom bem humorado do início ao fim, um tom sempre galhofeiro de uma carioquice meiga e, no entanto, ferina. No adendo intitulado “Afinal”, publicado em seu primeiro livro, A tal chama O tal fogo, Bozzetti explicita algo dessa relação entre escrita e cidade:

E nos textos que aqui vão, gosto de reconhecer uma lírica urbana e uma lírica de “sentimento íntimo” do Rio – que mais e mais quero ver distante das exteriorizações bocós de qualquer carioquismo cultural, muito em voga há algum tempo.

Se o primeiro livro já indicava uma experiência de linguagem apurada, Bozzetti segue provocando um fenômeno corriqueiro, mas insuficientemente explicado a que se dá o nome de riso: zombaria, paixão, capricho, vergonha, morte, negatividade; ao ler Firma irreconhecível, engana-se quem pensa que a prosa do mundo não faz poesia. Quando evoco a idéia de negatividade, emprego o sentido que Blanchot dá ao que ele chama de “paixão pelo pensamento negativo”, como impossibilidade de jamais se deter em qualquer consolação ou em qualquer verdade, nem nos interesses ou nos resultados da ação, nem nas certezas do saber ou de alguma crença. Trata-se de uma “explosão interior”, de se pôr a trabalhar, de se tornar produtor, auto-produtor, diante mesmo desse “excesso de nada”, desse “vazio inutilizável”, o que não é ceticismo ou dúvida, mas a própria capacidade de morrer.

Apoiado sobre o princípio da inversão e da quebra de hierarquias (poesia cantada/poesia erudita, o pessoal/ o anônimo, o sério/ o fútil, o solar/ o negativo), fazendo ecoar vozes vindas de uma diversidade impressionante de lugares (de Mallarmé a Jorge Bem, passando por Pessoa, Murilo, Bandeira, Monsueto ou Abel Silva, entre tantas outras assinaturas), Bozzetti orquestra sua heterofonia e heterologia. Às tonalidades sertanejas ou faladas, alterna-se um canto mais grave, o da errância, o do (des) encontro, que se misturam a um canto mais leve ou circunstancial (como as blagues dos “Rabiscogramas”), tudo na mais elegante dissolução da solenidade poética. Tudo sempre mantido no devir, no exercício, no rabisco, no inacabamento. Ao humano parece não ser mais possível se expressar em termos de essência, mas somente em termos de drama (ainda que sempre cômico); como se sua grandeza fosse viver seu defeito de fabricação até a explosão final.

O leitor compreenderá alguns traços do estilo bozzettiano, nesta espécie de ready-made para onde o texto impulsiona o autor no poema-título:

(...)

em tudo que nos céu viaja

vida toda linguagem

viaja uma invenção de

Orfeu Orftu Orfele Orfnós

Orfvós Orfeles, pela

Estrada de dissonância

viaja a doce imagem delas,

como são lindas as mulheres!,

riso franco de varandas,

quero perpetuá-las,

só todas de algumas delas,

nelas quero perdurar,

tola tenção de iluso

narciso intruso porfia,

a mulher que foi comigo,

a que não foi mais iria, a

que a vontade de viciado

satisfazer saberia, a

que sente meus dedos frios

sobre a sua espádua nua

(...)

Teria eu que satisfazer a curiosidade do leitor e entreabrir, ainda, esse “Caixotão das Americanas” que deixa aparecer malabarismos imagéticos e sonoros em torno de filmes assistidos, ou adiantar as homenagens prestadas em “Nomes de formas”, (Niemeyer, Drummond, Cabral, Tomzé, Paulinho da Viola e Jorge Bem), ou observar a complexidade enunciativa em “Todo Prosa”? Que o leitor se deleite com os festejos e os intertextos forjados por Bozzetti, sem minha intrusão!

Apenas, retomaria a questão da assinatura, “aceno”, “rabo de fora de gato escondido”, “dívida”, que ecoa em tantas passagens, e que nos refere às noções de sepultura, traço, ausência, silêncio (“assinar não vale nada”). Dentre as modulações tão freqüentes em torno do tema da inversão, da falsificação, a política deste Brasil

 

(...) lixão. Assinar se assina

tudo em terra onde se aprende,

desde a tenra idade implume,

que não se paga ou se pune

credor, revisor, ladrão

que não honra o que assina,

se o nada é o minto que é tudo.

(...)

pérolas de ostracismo

em longos anos de abismo

um silêncio de cinismo,

no ouvido do Brasil.

 

Observe-se, ainda, a liberdade no movimento que se arrisca, aqui, com corte e enjambement, em descontinuidade, remetendo para o tema recorrente do epitáfio:

(...)

Eis que aqui jaz o sumo

Dos borra-botas. Lapidar

como se a lápis assinasse

para sempre: Descanse em paz

(já vai tarde) (filho da puta),

que exemplo! Pai extremado

(corno, quebraste) o filho

querido (que traste!). Dorme

no inferno) teu sono, Amor

eterno (pois sim), Chorosa Es-

posa (putana), Orai por Ri-

cardo(ao), Amparai (Brás

das apólices), Na viuvez

apoiei (não deu conta),

(...)


Por último enfim, este “Epitáfio: como se pensa”, bartlebiano e wittgensteiniano:

 

Epitáfio: Como se pensa

Tudo que ouviu e não precisava. Tudo o que falou e teria sido mais inteligente que não. Todos os vexames que poderia não ter dado.

Tudo. Quer dizer, nada.

Então me calo, para não aumentar o mal-entendido, deixando ao barulho do mar completar essa rapsódia:


Que o ouvido na concha ouça:

Voz de mar, mas não da carne

A qual a despeito do olvido

trabalhou em ressofrimento

.....

o infinito é precário

marcado num breve tempo

quando o silêncio é cantado.

Silêncio maiúsculo que faz o fundo da música e tudo o mais que possa abarcar uma inteligência privilegiada e um espírito inquieto como os desse rapsodo-autor de Firma irreconhecível. Mas, com ele, do que não se pode falar, só nos resta rir.