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Boca de fronteira, incandescências na garganta de valter hugo
mãe
Monica Simas
Tenho missão tão grave sobre os ombros/
e quero só vadiar
(Adélia Prado, “A boca”, Terra de Santa Cruz)
Ai alma! Minha alma
diz-me quem eu sou
(Paulo de Carvalho, “minh’alma”)
cada um tem que procurar as suas invisibilidades.
(valter hugo mãe, entrevista à Isabel Coutinho1)
Um dos aspectos fundamentais da extrema criatividade da
poesia de valter hugo mãe2 é a forma como ela se instala no
limite, em um jogo de diferenças que mobiliza a linguagem na
construção de um espaço muito próprio. Um de seus livros heterodoxos,
por exemplo, o livro de maldições (2006), constituído
de pequenos textos poéticos, atravessa um gênero já híbrido — o poema em prosa — para altivamente erigir-se para além do
murmúrio da língua. Penso o murmúrio da língua em função
da definição de Blanchot (2001)3 com relação à itinerância do
pensamento, a partir do qual um som reverbera tudo o que já
foi pronunciado dentro da constituição da própria linguagem.
É a pronúncia de subversões já efetuadas, portanto, pelo menos
desde Baudelaire, que a dicção dessa nova poesia parece querer
ultrapassar, depositando-se nas margens da diferença por
intermédio de dissidências ou de uma palavra plural.4
Em um outro livro, egon schiele, auto-retrato de dupla encarnação
(1999), as fronteiras entre as duas artes, plástica e verbal,
convertem-se simultaneamente em espaços bem demarcados,
que derivam dos recursos e objetos com que cada uma opera,
ao mesmo tempo que inventa um terreno incerto de trocas,
de transgressão portanto. Também o projeto musical Governo
(2008), transformado em vídeo clipe por Esgar Acelerado, em
que valter hugo mãe canta e escreve as letras das canções,
constitui um deslocamento de suporte além da intersemiose
musical, que não deixa de ser um outro desafio à experimentação
poética.
Além de buscar o espaço limite que é sempre a insurgência
de uma nova presença, seja em relação ao gênero, ou às artes,
ou aos suportes que abrigam a sua poesia, esta se constitui
como uma obra de fronteira também em relação a determinadas
tensões constitutivas: deus/diabo, alma/carne, morte/vida, júbilo/
crueldade, rotina/insólito, corpo/invisíveis, sexo/afetos, realidade/
ilegibilidade, erudição/abjeto, arcaico/contemporâneo provincianismo/cosmopolitismo, etc. Sei que nomear oposições
não é algo novo em si, ao contrário, é uma simples constatação
de um modus operandi de certas escritas subversivas de todos
os tempos, mas o que pretendo realçar, na leitura a que ora me
entrego, diz respeito à criação de um núcleo de ambiguidade
divergente, do processo estético/ético, liberador dessas e de
outras disparidades que habitam o seu mundo poético como
vontade e criação. E, claro, o rastro que sigo se constitui apenas
a partir de um ponto de vista, nunca é demais esclarecer;
surge de uma necessidade particular de parar frente à rotação
incandescente dos signos para poder fixá-los, deixando-me
rodopiar com eles.
Para compreender o que considero ser a “ambiguidade
divergente” nada melhor do que lembrar as palavras de Chan
Hou Seng, diretor do Museu de Arte de Macau, ao apresentar
a proposta de Macau à 53a. Bienal de Veneza, deste ano. Ele
aponta que onde dois caminhos se separam é a divergência,
pelo menos assim mostra o ideograma correspondente, uma
estrada bifurcada. Segundo ele, se a ambiguidade deve ser
evitada no campo da lei e no campo da língua comum, já no
campo artístico “a divergência é um recurso a explorar, de
forma deliberada, pois oferece um potencial capaz de tornar
uma obra delicada e sinuosa [...] um estímulo à imaginação.”5
As culturas são cheias de conflitos principalmente no que diz
respeito à comunicação, mas os mesmos conflitos podem implicar,
na arte, uma abertura à vida de uma maneira que ela se
torne mais colorida e estimulante.
Penso, nessa mesma mão, que a escrita de valter hugo mãe
reverbera contrastes, provenientes de elementos e procedimentos
criados por vertentes artísticas que confrontaram olhares no
que diz respeito à modernidade. Essas, designadas pelo historicismo
literário do século XX, de movimentos ou escolas, como
Orpheu, Presença, neo-realismo, surrealismo, expressionismo,
poesia experimental, etc., correspondem a distintas tradições
expressivas que têm sido relidas, no tempo atual, a partir de
novas perspectivas. Por isso, o aparecimento da poesia de valter
hugo mãe revela um imaginário humano cuja referencialidade
imagética é bastante complexa. A propósito, a aproximaçãoà ambiguidade divergente que a leitura vai buscar leva em conta
que essa inflexão não poderia ser senão geradora de uma
recepção polêmica e de estreita circulação.
Por isso, faz sentido que o poeta se espante com a “companhia” que encontra, hoje, entre leitores cada vez mais numerosos,
outros escritores e a crítica. Ao receber, em 2007, o Prêmio
José Saramago, de forma unânime, afirmou: “É profundamente
chocante receber este prémio desta forma. Estou habituado a
pensar na escrita como um exercício de solidão e hoje sintome
muito acompanhado”6. Apesar de a “companhia” ter-lhe
vindo através da prosa, pois fora com o seu segundo romance,
o remorso de baltasar serapião, publicado em 2006, que recebera
o prêmio e a respectiva consagração, a mim parece-me que é
justamente na poesia que o autor tem forjado o desassossego
das palavras em desafio constante à linguagem.
Além do referido livro premiado, publicou, na prosa, o nosso
reino (2004) e o apocalipse dos trabalhadores (2008), todos pela
editora QuidNovi. Escreveu também alguns textos para teatro
e de vez em quando participa de exposições artísticas.
Na altura do prêmio, valter hugo mãe já tinha, no entanto,
10 títulos de poesia publicados, sendo que um deles, egon schiele,
auto retrato de dupla encarnação (1999), já referido, também
tivera algum destaque com o Prêmio Almeida Garrett. Os outros
títulos são: silencioso corpo de fuga (1996), o sol pôs-se calmo
sem me acordar (1997), ambos editados pela extinta editora A
Mar Arte, de Coimbra; entorno a casa sobre a cabeça (1999), da
Silêncio da Gaveta Edições; estou escondido na cor amarga do fim
da tarde (2000), publicado pela Campo das Letras; três minutos
antes de a maré encher (2000), a cobricação das filhas (2001), útero
(2001), os três publicados pela Quasi Edições; o resto da minha
alegria seguido de a remoção das almas (2003), editado por Cadernos
do Campo Alegre, e o livro das maldições (2006), pela
Objecto Cardíaco. Publicou, ainda, pornografia erudita (2007),
pela Edições Cosmorama e bruno (2007), na Espanha, pela
Littera Libros.
Como quase todos os livros tiveram pequenas tiragens e
encontram-se sgotados, o poeta resolveu reunir sua obra, em
folclore íntimo (2008), também publicado pela Edições Cosmorama,
fazendo algumas alterações e reagrupando os livros do
mais atual para o mais antigo. Em nota, o autor explica que a
remoção das almas foi separado de o resto da minha alegria. Por
sua vez, o primeiro é uma súmula que condensa e altera os seus
dois livros de estreia. Os livros egon schiele, auto-retrato de dupla
encarnação, entorno a casa sobre a cabeça e estou escondido na cor
amarga do fim da tarde não constam da obra reunida enquanto
que nesta aparecem dois novos títulos: a natureza revolucionária
da felicidade e metamorfose para romeo castellucci. O primeiro foi
escrito em 2008, acrescentado de dois poemas anteriores. O
segundo juntou três poemas de épocas distintas, “coisinhas
preciosas para meter no cu” e “balouço”, que foram escritos
para um espetáculo de leitura, programadas no teatro Campo
Alegre, por João Gesta, em 2006, mais “a beleza daninha”, escrito
em 2002 e até então inédito. No Brasil, convidado a participar
da 27a. Feira do Livro, em 2008, publicou uma antologia,
edição limitada para colecionadores, mil e setenta e um poemas,
pela Thesaurus Editora, com alguns inéditos.
Deambulo pelas alterações da obra reunida, por as considerar
reveladoras de um percurso fluido e da vontade de
contemporaneidade que o autor afirma ter: “importa-me que o
que aqui vai seja a passagem para um tempo outro mas como
um estádio intermédio e nunca uma fixação definitiva”. De
modo que, sendo já outra a poesia, não caberia, aqui, ler os
poemas num sentido de evolução. Prefiro um diapasão aos
saltos, apesar de não perder de vista a cronologia, pois é um
destino em divergência, cheio de conexões, que este roteiro
pretende traçar.
Em a remoção das almas, tal como está fixada na obra reunida
(folclore íntimo, 2008), encontro uma paisagem de escrita que
nasce da revolta sepulcral em que ao deus, palavra inteira e
perfeita, sobrepõe-se uma boca capaz de encantar e de se deixar
queimar, como que anunciando que a aurora depois do fim
não poderia prescindir de uma abreviação, de uma entrega
intensiva cuja ruptura consentida se dá num corpo feito de
carne e de veneno.
[...]
o sol ainda e
eu abreviei a alma
observando, ensaiando
para os pesadelos que tenho
de propósito.
[...]
sei que
o vocabulário de deus
é perfeito e só
acedo a uma frase em
círculo fechado onde o deus que
existe é dom de um
vocabulário meu
[...]
17
a boca é uma fenda
capaz de se revoltar e das
coisas ao longo da claridade
fala o galo ao chamar
o dia, o firmamento
pesado, uma linha
capaz de rebentar
[...] 8
Se desde o final do século XIX estamos em um tempo de
fim da “aura” poética, tal como o pensador alemão Walter
Benjamin supôs, esta voz, consciente da sua precária condição,
parece querer substituí-la por uma nova “aurora”, que vem
através de uma precipitação, de uma entrega revoltada antes
do fim (“a boca é um fenda capaz de revoltar”). Uma poética
se faz assim nesta “fenda”, portanto, abertura através da qual é possível convulsionar a linguagem dos dias ante o “firmamento
pesado” e que não prescinde de uma consciência sobre
a sua função. A noção da “fenda”, importantíssima a esta gesta
poética, subverte o ato genesíaco tradicionalmente evocado na
ideia de poiesis, deslocando-o para o sentido de um fim próximo.
A “fenda da boca” constitui-se como lugar privilegiado,
de passagem ao fim, o lugar da transformação de tudo. É no
espaço possível da morte que a escrita pode realizar o mundo
plenamente — “chamei-te mãe/ e no oco da boca/ senti-me
cheio” (de “Para vos engordar a alma”, em útero). Os fenômenos
do mundo nomeado são traduzidos na presentificação de
materialidades circunstanciais, do seu entorno, conjugadas a
forças imateriais, das quais o ato poético não pode prescindir — “vender a alma/ como madeira a incandescer/ ou euforia
pela transparência” [...] (ibidem, em útero).
Estamos diante de uma poética de recusa, de desafio não só à morte final mas à morte da linguagem em sua produção de
sentido, também às pequenas mortes vivenciais do dia a dia
que é o mesmo que dizer que um ser deixa de ter importância
a outro e, ainda, à morte habitual que as difíceis condições
sociais geram, além da morte de amar. Estou já a falar de
um tópico importantíssimo dessa poesia — a morte. Desde o
início, essa poética se dá na precipitação da morte, o que, nas
palavras de Blanchot novamente, corresponderia a uma espécie
de thanatografia (discurso das mortalidades), em revoltadas
ressurreições. No “poema que explica a morte” (de livro de
maldições), a morte é a necessária força primeira de uma escrita
que se revela resiliente.
três vezes seguidas um homem se sentiu morrer, por cada ocasião em
que perdeu o amor. depois, morrendo deveras, o homem sentiu pouco.
apenas que voltava a um lugar conhecido ou que, mais certo, desistia
de morrer novamente.
A morte, chave motora do verbo, portanto, engendra as dimensões
que a palavra poética busca atravessar. Em “coisas por
acontecer, dois” (de a natureza revolucionária da felicidade), por
exemplo, a profecia invertida temporalmente, pois sugere uma
condição de morte atribuída a um passado, anterior ao momento
da fala, corresponde à convocação de um determinado tipo
de silêncio provocador de uma atmosfera de expectativas de
estranhamentos propícios à imaginação — “[..] silêncio agreste
ante todas as/ tentativas de expressão,/ e onde quem se abeire/
o faça com a ilusão mesma dos/ contactos entre dimensões,
fugazes,/ assustadores, mórbidos [...]”.
Em dupla mão, o percurso poético invoca a morte para poder
recitar um rosário de sobrevivências. Se o livro três minutos
antes de a maré encher liga a morte às forças de resistência dos
seres, como se vê logo adiante, já o livro o resto da minha alegria,
cujo título foi retirado de uma canção de Adriana Calcanhoto
que aparece em epígrafe, traz, ainda, dois poemas sobre a
morte de amor, o primeiro como súplica ao amado para que
este venha ver o seu corpo que é morto porque sem alma e o
segundo sobre a invenção imaginária de um amor diante da
solidão de se morrer sozinho, sem ninguém ao lado. Mas será
em pornografia erudita, que, no poema “o rapaz dotado de três
mortes”, da primeira parte, “conhecimentos científicos sobre
a morte”, a thanatografia anteriormente referida se explicita
numa espécie de criação de um alter ego feito de mortes.
Retorno, no entanto, a três minutos antes de a maré encher, livro
que trata da morte no seu aspecto social, para comentar que no
poema “o silêncio como sustento”, o efeito de realismo da vida
da província — “[...] gente do frio, o cobertor/ pelas costas no
fundo do dia, a/ noite e a oração, deus nos/ perdoe a ferocidade,
a dor tão/ profunda, a comida mal servida e desperdiçada/ [...]” — poderia aproximar essa poesia das preocupações gerais do
neo-realismo, mas seria ignorar por completo a dialogia que
ela aprofunda no lugar da dialética ideológica. Não existe,
aqui, a voz de um povo sofredor, vitimizado, apesar de haver
a dor; nem é o sujeito poético um fio que o guiará para fora do
labirinto da alienação. Também não existe um pré-julgamento
moral que se estenderia sobre o outro. O poeta, como “as viúvas”, “os velhos”, “as crianças”, é personagem que se insere no mundo sem a pretensão de sabê-lo a partir de uma determinada
teoria ou doutrina. O poema estabelece uma relação “eu/outro” em mesmo nível, enigmática e de aprendizagem. Ao olhar para
as pessoas, as suas vidas e a natureza, não lhe é ignorada a capacidade
que elas têm de lidarem com as adversidades, o gesto
humilde como uma poderosa convocação de forças invisíveis
em que o exercício da poesia quer mergulhar.
O poeta é, dessa forma, um ser entre outros, humano, falho,
com suas crenças, simples, ignorante, mortal, e dizer isso não
significa necessariamente um rebaixamento da sua figura, mas
uma exaltação do outro, a instauração de um aprofundamento
dos vínculos que unem o poeta aos que vivem. Habituados que
somos a encontrar uma marca especial na nomeação “poeta”,
pode ser estranho que a experiência do outro ou com o outro
seja a fonte das possibilidades incandescentes dessa poesia.
Mesmo que haja uma certa ironia nessa imbricação, pois a
sensibilidade está no olho que vê e a poesia naquele que cria, a
formulação aplica-se e, de um modo original, através da caracterização
de um poeta importante como Herberto Hélder, poeta
conhecido também pelo auto-exílio das instituições literárias.
O Herberto Helder tem duas
pernas e dois braços, dois olhos
tem nariz e boca e come, vive
numa casa, espreita pelas janelas,
por vezes sai à rua, sozinho ou
acompanhado, a falar, apanha
chuva, liga a televisão, sabe onde
fica a França, lembra-se quando
era pequenino, inclusive
teve mãe e pai.É impressionante o quanto um poeta
se pode assemelhar às pessoas! A última vez que
falei com ele mandou-me um abraço.
Assemelhar-se é uma palavra que encerra em si o comum e
a diferença entre o poeta e as outras pessoas, no entanto, numa
relação de aproximação. Faço a conexão deste com outro poema
extraordinário que é “um túmulo cor-de-rosa esdrúxulo
para o cesariny”, em que a voz poética, sarcástica para com o
rito de homenagens atribuídas ao poeta, busca uma espécie de
fidelidade, revoltando-se e anunciando ações sexuais libertas
da moralidade instituída. Note-se que, dessa forma, a voz
poética não deixa de prestar uma homenagem, talvez a única
possível àquele que foi guia de uma vida extrema. Por isso,
ao poeta, só cabe aparecer “como nu” (“o poeta como nu”, de
o livro de maldições), “sem pétalas”, de um forma que “nunca
tal se vira” porque aos poetas (principalmente aos mortos) é sempre atribuído um dom especial, e parece-me que essa
poesia busca ir na contramão dessa mitificação e das sínteses
conclusivas. Como sabemos, pela voz de Álvaro de Campos, “a única conclusão é morrer”.
Melhor é aproveitar a vida, a paisagem, os detalhes dos dias,
antes do fim. Em “raiz de pássaro”, outro poema do livro três
minutos antes de a maré encher, até “deus”, todo poderoso, é
convocado a corporificar-se para comungar com os homens:
junto-me às velhas
que resmungam o terço
também eu tenho
uma meta
física
chegar ao corpo de deus
22
e se o cutelo do poema há-de
encerrar-me aqui, o poejo
à mesa no espaço da
tarde, um clarão
perdura lá fora
[...]
eu sou apenas um poeta,
ignoro também as coisas todas
por mais magia que exista em
dizer que posso falar do mar
como incêndio de água e até erguê-lo em
chamas numa só palavra, porque isso
será apenas um
efeito secundário da boca
como coleccionar o inferno, um
poema mais difícil de conseguir
[...]
resmungando, resmungando,
o terço é sangue do verbo, ah deus meu
não me caleis, resmungai comigo
este verso, saboreai o poejo antes
de reclamares a posse do mundo e
for tão definitiva a nossa perdição e
absoluta inutilidade.
[...]
escrevo nos olhos de dante, e
o que vejo é o poema no fim do arco-íris
para onde sigo culpado, com um anjo
que me fica bem às costas, e mais do que
isso, só faço olhar o céu, modo de
não pesar e acreditar que, um dia,
ficarei calado tendo descoberto uma
só palavra que seja, de facto, um
recipiente do teu perdão.
O fato é que a relativa inutilidade do poeta, neste poema,
encena igualmente uma relativa esperança e capacidade de
resiliência. “Olhar o céu”, esse “modo de não pesar”, insinua
uma das fulgurantes propostas de Ítalo Calvino para a literatura
deste milênio10 — a leveza, pelo menos como desejo. A ambiguidade,
talvez, mais bela dessa poesia será provavelmente
acumular a noção já improvável, hoje, de responsabilidade da
poesia, ou seja, do peso da sua missão, com a condição de sua
própria liberação por um processo de soltura e até mesmo,
ou principalmente, de super exposição das condições que lhe
são opressivas .
Por um lado, a reiteração da realidade circunstancial a aproxima
daquelas, identificadas em recente conjunto de ensaios de
Rosa Martelo (2007)11, cuja construção de identidades sentimentais
e criação de efeitos pseudo-biográficos são evidenciados — “onde vais, valter hugo mãe, tão sem ter/ com quem, tão
precipitado/ a caminho de quê” (“gordo e careca”, de a natureza
revolucionária da felicidade), ou então em “mil quilômetros além
do corpo” (de bruno):
[...]
um dia, respondo, seremos suficientes
para cada invenção e faremos sexo só com
o ar, metidos pela cabeça adentro capazes de
sentir pelo corpo e por quanto não tenha
lugar. quem me reconhece pode perguntar,
o que faz aí, senhor valter hugo mãe. [...]
Esse efeito, encontrado em poesias tão diferentes como as
de Adília Lopes e Joaquim Manuel Magalhães, ou Manuel de
Freitas e Rui Pires Cabral, é posto em xeque, no entanto, por
uma suspeição de ficcionalidade, apontada por Rosa Martelo
no estudo citado, que de certo modo neutraliza o efeito realista — “posso falar do mar como incêndio de água e até erguê-lo
em chamas numa só palavra, porque isso será apenas um efeito
secundário da boca” (em “raiz de pássaro”, de três minutos antes de a maré encher). Por outro lado, essa inflexão poética não
deixa de mostrar ainda a atualidade de referências imagéticas
das vanguardas, como as do surrealismo em seu efeito unitivo
do mundo. E, às vezes, é pela via do abjeccionismo surrealista,
de fortes imagens sexualizadas, das sobras e rejeitos do mundo,
lembrando os famosos versos de “Protopoema da serra
d’Arga”, de António Pedro, lançado no terceiro número dos
Cadernos Surrealistas, que o espaço da província (no caso, a
litorânea) é metamorfoseada:
[...]
mijam-nos as filhas, ainda
que cresçamos como crostas
em redor das suas peles, enterramos
os netos no quintal e adiamo-lhes
as almas, recebemo-los anos
mais tarde, perdoadas
e tombadas no chão a partir
das filhas desparasitadas
[...]
(“as viúvas são poços na imagem”, a cobrição das filhas)
e eles são larvas
alojadas no sexo ocre
que elas trazem, a devorar-lhes
o miolo para volverem
os predadores meticulosamente criados
à medida do medo delas
(“os olhos encaracolados de sonhos”, a cobrição das filhas)
Outras vezes, na maioria, a condição poética é o lugar da
necessária dor que emerge de profundas idiossincrasias culturais,
de comportamentos arcaicos entranhados desde tempos
imemoriais, consentidos numa violenta habituação gestual que
afeta sobretudo as mulheres.
[...]
mergulham à proa do
beijo, o corpo deles
a mutilar o delas como
um animal aflito, elas
estreitas na cama, apenas
um punhado de viveres, o
sangue a iluminar os
lençóis e as mãos escavadas
no peito, elas malignas,
cheias de graça
dizem que não se importam, que
os metem a todos no cu, e
só isso explica porque
ficam tão inchadas
(“os olhos encaracolados de sonhos”, a cobrição das filhas)
Um núcleo dessa poesia centra-se na dor decerto. “Filhas”, “velhas”, “viúvas” não são simples personagens numa invocação
do feminismo, se bem que esta poesia possa ser olhada
por essa condição da mesma maneira que pela condição de
denúncia social revelada. Mas os seres, aqui, são sobretudo
lugar em que a voz poética dramatiza o outro para beber na
sua fonte de força, nesse receptáculo de experiências únicas da
sua resiliência. Talvez isso explique o título da primeira parte
do livro a cobrição das filhas, “as viúvas são poços na imagem”.
Neste, é a voz dramatizada das próprias viúvas a dizer a sua
condição resistente. Em “os olhos encaracolados de sonho”,
não é a dramatização das filhas que está em jogo, apresentase
o uso de uma fala indireta, mas o observador posiciona-se
perversamente entre a crueldade consentida e a interdita da
vida das prostitutas, numa revolta contra a hipocrisia.
Posso imaginar que, na crueldade dos dias dessas mulheres, a trava da censura fora arrancada daquela “fenda da boca”
e, por isso, a poesia pode expor a crueldade de uma forma
obscena que, no caso, poderia ser descrita como “nua e crua”,
despida dos artifícios da cordialidade social. Com isso, já estou
a aludir a outra herança da modernidade, a do expressionismo
que deforma o belo e invade infernos interiores através da
exploração dos corpos. Como a maldição que incide nas “paisagens
no interior/ dos velhos ou visões/ de almas ao alcance
do/ inferno” (“para vos engordar de alma”, em útero), o olhar
incide sobre o pathos de modo a buscar um pacto com a sua
recepção, fazendo-a reconhecer a liberação buscada nas paixões
e patologias expostas. Daí a importância fundamental da
palavra “alma” e de outras duas, suas coadjuvantes, “deus” e “diabo”, na construção de uma expressividade própria, dura e
lírica, abjeta e afetuosa que fecunda essa garganta poética com
mil incandescências.
Sem dúvida, as palavras “deus” e “diabo plantam-se a partir
do território regiano e de seu entorno, mas também como ponto
de fuga a outra direção e dicção. E não pense o leitor que digo
isso, fazendo uma inferência biográfica simplista por ter sido
valter hugo mãe diretor do Centro de Cultura José Régio, em
Vila do Conde, nem por ter organizado uma antologia de sua
poesia; digo-o em função da ambígua “perdição” que é a poesia
no devir do modernismo, ou melhor, dos modernismos.
Sobre a significação que o grupo de artistas que girou
em torno da revista Presença teve para a formação de um conceito
da modernidade, ou seja, da sua atuação frente à arte que
existia no seu mundo próximo, da sua capacidade interventiva ou não, remeto o leitor ao texto de Vieira Pimentel, “Da ‘prépresença’
à presença”12, sem falar do já clássico estudo de Eduardo
Lourenço, “Presença, revolução ou contra-revolução?”
Não cabe, no âmbito desse trabalho, essa discussão, mas observo
apenas que é mais fácil elaborar a poesia atual em termos
de uma filiação pessoana14 do que em relação a uma filiação
presencista. Outra questão que seria muito pertinente de ser
desenvolvida, num outro momento, corresponde à atribuição à província de uma série de preconceitos que a projetaram de
encontro ao mundo moderno.15
Ao olharmos para as constantes da poesia de valter hugo mãe,
especialmente aquelas que referimos anteriormente — “alma”, “deus”, “diabo”— percebemos que, para aqueles que vivem em
terras de santa cruz, a que a epígrafe dessa leitura faz menção,
tanto “deus” como “diabo” são figuras alegóricas comunicantes
no mundo dos homens, potencialmente agentes de surpresas,
de imprevistos tamanhos, de uma poderosa invenção poética “no intervalo da fé” a que refere, às vezes, valter hugo mãe em
sua poesia. A “alma” será todo aquele terreno da intimidade,
da proximidade abissal e fronteiriça da dor e da (com)paixão.
Nessa poética, o poeta é também guardião de interioridadesà mercê dos delírios infernais diante do murmúrio das palavras
que em seu coletivo é “deus”. O poeta localiza-se “no/ sopé da
montanha como/ espantalhos no terreno da alma” (“exoalma
ou voz extensa”, em útero) para que elas não sejam corrompidas
das suas contradições. A alma só existe escrita, “extensa”,
verbalizada na carne do corpo.
A experiência “alma/corpo”, na linguagem da poesia de
valter hugo mãe, agrega os buracos, “janelas que a memória
abre sobre a pele”16, da poesia de Luís Miguel Nava, poeta que,
segundo António Manuel Ferreira, abriu caminho para “o interior
menos visitado do homem”17 e a quem valter hugo mãe
dedica um poema pela ocasião da sua morte, “o desgoverno
dos sonhos”, em três minutos antes de a maré encher. Agrega
também percepções de um campo variado das artes, como
o da pintura de Egon Schiele ou o da dança/performance de
Romeo Castelucci18, sendo que o primeiro corresponde a um
trabalho inter-semiótico criativo enquanto que o segundo será
parte de um título da sua poesia como uma invocação a uma
certa continuidade do teatro das crueldades, germinado por
Antonin Artaud.
Retorno, então, agora, ao livro egon schiele, auto-retrato de
dupla encarnação19, livro publicado antes ainda de três minutos
antes de a maré encher e o primeiro através do qual tive contato
com a obra de valter hugo mãe. Da relação com os elementos
estéticos da obra do pintor austríaco — distorção das figuras
corporais, intensidade perceptiva e dissonância estética — o
sujeito poético trabalha, em duplo, num jogo constitutivo de
figuras ficcionais que se distanciam da noção que o autorretrato
implica. Quem observa os modos como a voz engendra ora
pontos de vista do pintor, ora de um espectador, ora na transformação
de títulos de quadros de Schiele em espaço biográfico,
ora, ainda, na derivação de obras de outros artistas, como o
grito, o famoso quadro de Edward Munch, é Francisco Saraiva
Filho, em poderoso ensaio.20 Nele, o autor, primeiro, apóia-se
numa determinada condição do nosso tempo presente, a polifonia dialogal, para mostrar como a formulação catártica da
arte expressionista busca uma liberação das pressões íntimas.
Através de um foco sobre o sofrimento, que se dá a partir de
intensidades perceptivas emocionais, a teatralidade da encenação
do eu em diferentes posturas corporais, na pequena obra
de valter hugo mãe, redimensiona as conexões entre as artes.
Os vários graus de integração entre palavra, imagem e corpo
dão-se em discursos independentes que coincidem na palavra
escrita; cito o poema que abre o livro:
vê esta garganta
espaço onde as minhas
exposições se fazem
É de um chamamento à visão que parte o poema. O leitor é
convocado a ver a garganta desenhada, espaço onde as exposições
do pintor se fazem ou a perceber a garganta como órgão
vocal, espaço em que a voz do poeta se projeta. O enunciador,
omitido neste poema inaugural, é o poeta ou o pintor? As
exposições dizem respeito à poesia ou à pintura? Da mesma
maneira que o poema inicial dessa obra opera ambiguamente
no campo das imagens, pois elas funcionam nos dois campos,
o pictórico e o verbal, aproximando-as, o poema final salva
as diferenças entre as artes, marcando a sua distância no rito
da homenagem:
posso apenas insinuar
este poema. trazê-lo
ao livro por uma
extrema sensibilidade que
poucos partilharão
homenageio a boca do pintor,
lugar onde o silêncio se cobre21
O lugar, nesse limite do encontro, em que “o silêncio se
cobre” é o espaço ocupado pela tinta, espaço da homenagem.
A possibilidade de se instalar no limite, de demarcar a sua
diferença e, ao mesmo tempo, incidir sobre a incerteza do espaço
dialogal, implica uma simbólica transgressão dos limites
ontológicos da poesia nessa poética22. O olhar que se detém nos
quadros percebe uma lição: que a arte, em seu artifício, só pode
externar o corpo que já for possuidor de luz dentro, como posto
em “auto-retrato com cotovelo direito levantado” passou batôm nos lábios como um
interruptor que lhe acendeu
a boca
mas depois
não disse nada
A cor acentua a luz já existente, é um modo de intensificar
a percepção. Lição aprendida, a poesia mergulha nas veredas
da transfiguração, na implosão do código da linguagem,
percorrendo as sendas da literatura menor, conceito que Rosa
Martelo descobre em Deleuze e Guatarri a partir da leitura que
eles fazem da obra de Kafka e que diz respeito ao momento
em que a linguagem tende para os extremos ou limites.23 No
extremo da linguagem, a poesia de valter hugo mãe será intensificadora
da luz dos seres, das suas poderosas invisibilidades,
dos fogos de seus interiores, desses que eu numa paráfrase a
Camões digo que “ardem sem se ver” para afirmar que essa
poética não deixa de querer ser um modo de amar.
O livro que me parece mais reiterar a noção de limite da
linguagem no uso e, porque não dizer, no abuso das invisibilidades é, sem dúvida, livro de maldições, mas antes de seguir
na sua leitura, faço uma observação, ainda, sobre o estilo curto
dos poemas que compõem egon schiele, auto-retrato de dupla
encarnação, muito pouco usual na obra de valter hugo mãe,
construída geralmente sobre longos poemas informados de
narrativismo.
A exceção que este livro é, no conjunto, parece realçar uma
das condições do campo imagético, a condensação, denunciando
uma existência simbólica metafórica a par da alegórica
noção de precariedade que a temporalidade cindida da narratividade
mostra. Nos seus poemas, um efeito de “avançar” e “parar” constrói um ritmo interrompido feito, normalmente,
da associação de enjambements e cortes sintáticos intempestivos.
E se aludo à forma é justamente para chamar a atenção sobre o
hibridismo que encontramos em livro de maldições. Volto à ideia
de uma linguagem extrema para recitar um trecho de “poema
da toca kafkiana”:
uma mulher sentia uma dor no peito que julgava certo lhe ficara ali
por amor. era uma dor em espiral que lhe subia e descia o interior do
seio esquerdo como se fosse um animal [...]. reparou num pequeno
buraco que se abrira exactamente na extremidade da dor [...]. expôs
às amigas tal buraco. coisa pequena que se abrira ali e quase parecia
fechar-se. fizeram brincadeiras sobre o tempo e felizes acharam que o
mal passara [...]. voltou a sentar-se, já súbito o silêncio se fizera pelo
seu gesto, e disse, vi um grilo passar lambuzado de sangue, cantava
torpe, não parecia coisa de amor.
A escrita colide com a expectativa de um leitor desacostumado às deformidades como lugar privilegiado da percepção.
A “deformidade” consiste no desvio do efeito esperado em
direção ao belo, tornando a expressão um lugar de dissidências.
Esse poema em prosa narra a constatação de uma dor no
peito, sentida por uma mulher e que, num primeiro plano, é imperceptível às amigas em redor. Tudo indica que ela só pode se aproximar da explicação através de uma composição
analógica que empresta ao aspecto instintivo da dor, o seu lado
animal, a imagem “irreal” do grilo ensanguentado. É por meio
dessa metáfora violenta que a “realidade” é definida. O breve
poema em prosa inverte estrategicamente o mundo “real”,
que se manifesta na situação da mulher com dor no peito por
causa do “homem por quem se prendera”, sobrepondo a ele “o buraco que se abrira exactamente na extremidade da dor”,
a “irrealidade” que se infiltra no mundo comum distorcendo-o
em uma imagem abjeta. O abjeccionismo é sempre uma recusa
orgânica e instintiva da resolução poética dialética, daí a
evolução verbal imagética desses poemas em prosa poderem
transformar a aversão do leitor em necessário confronto com a
dor, a doença como beleza, ou em um despertar para as invisibilidades
diárias. Em “maldição contra a triste normalidade”,
o poema, desde o início, instala-se na “irrealidade” de animais
sem asas que pousam no telhado de uma casa para assegurar
que “o homem que vivia na casa onde pousavam não os via,
ao menos, era o que dizia a toda a gente. que não via nada
de estranho a acontecer por ali”. A indeterminação sobre se o
homem via ou não via o acontecimento extraordinário reforça
a noção de que as “invisibilidades” são tão intensivas que a
normalidade não pode ser senão uma cegueira. Para ler estes
poemas, o leitor tem que compactuar com “a natureza revolucionária
da felicidade” — “quem deixou sobre o coração/ um
feixe de luz/ não cega nunca.” (em a natureza revolucionária da
felicidade).
O ato de ver ou de ler é sobretudo, nessas maldições, encarar
adversidades, expor-se a desconcertos e recusas instaurados
no próprio processo de linguagem. Para Fernando Paixão, o
poema em prosa funda-se em um questionamento do poder
criador das palavras:
É frequente, pois, depararmo-nos com uma escrita que processa as
imagens em estado de alta voltagem e mobiliza uma percepção de
elementos desconcertantes, ora adotando um viés da racionalidade,
ora levando a imaginação a explorar um livre campo de associações.
De um modo geral ou de outro, sobressai o gosto por uma atmosfera
de cunho dramático.
Além do drama em questão, a dispersão apresentada no
fluxo das imagens desses poemas converge paradoxalmente
para oferecer um flagrante da percepção subjetiva e os textos
nos podem contagiar, fazendo-nos perceber novos nexos.
Poemas raros talvez, mas da literatura portuguesa não posso
deixar de destacar os dos escritores com o desejo da experimentação,
como os de Mário Cesariny, os de Herberto Helder
e as “tisanas” de Ana Hatherly, para citar só três nomes que
se apresentam no universo literário de valter hugo mãe. Cito
esses nomes, entre tantas referências literárias, para explicitar
a dialogia feita com relação a um determinado repertório do
universo cultural português mais experimental, plena de citações
a poetas de uma geração anterior mas, por assim dizer,
ainda bem contemporânea.
O importante é que esses textos são reincidentes do amor
que é feito de lampejos. Até mesmo se repararmos em alguns
títulos dos 52 textos que compõem a obra, como “poema sobre
o amor de pais”, “poema contra quem usa dinheiro para
o amor”, “poema sobre o amor eterno”, “maldição contra o
amor sem corpo”, poderemos identificar uma significativa
preocupação em tratar do amor como uma importante reflexão
literária. Refiro o “poema de maldição e desamor, de mariana
para o marquês”:
mariana alcoforado sentava-se à janela do convento e maldizia a
sorte com palavras feias. [...] à noite, também sem mais nada, mariana
levantava-se sonâmbula e convivia com os bonecos com cara de
homem, beijando-os e sentindo-lhes o corpo nos dedos trêmulos. [...]
poderiam ter-se apaixonado por ela também e desaparecer dizendo-o
imperceptivelmente, como fora o paradeiro do marquês encontrado
no próprio suspiro da morte.
As famosas “cartas de amor” supostamente atribuídas à freira
Mariana Alcoforado são transportadas para uma linguagem
que, no jogo irônico, permitem transformar o trágico amor em
uma categoria de relação objetual de forma que literalmente aos
bonecos é transferido o amor da freira pelo marquês, sugerindo
ainda, no final, que se desaparecerem estes dispositivos de
transferência uma compreensão acerca da ausência poderia ser
revelada. Incerteza e ironia fazem parte também do tratamento
que a obra de valter hugo mãe dá às histórias de amor.
Em “coisinhas para meter no cu”, do livro metamorfose para
romeo castellucci, inventado na obra reúnida, folclore íntimo, os
bonecos “ken” e “barbie” são figuras centrais de uma pequena
história absurda em que, depois de ser castigada várias vezes
e de ter o quarto de brinquedos incendiado, a criança larga os
bonecos trocando-os pelas campas de pedra antiga, numa remissão
a um simbólico sepultamento. Neste poema narrativo,
o universo infantil é construído esteticamente pelo teatro de
crueldades da vida ordinária dos dias. A substituição da moralidade
pela obscena crueldade do mundo estende-se à distorção
das historietas infantis, como em “história da carochinha” (de
livro de maldições), em que a rainha, num dia de chuva, tomba
sobre o rei ao tentar arrumar a coroa que havia escorregado
sobre os seus olhos. Essas distorções, também presentes na
poesia de Adília Lopes, desvelam as perversidades implícitas
das tiranias moralizantes que as estórias infantis encerram.
Muito importante também é a relação de amizade que se
insinua no poema referido e que depois será o tema central
de bruno.
a importância absoluta de encontrar um amigo
no início, o bruno era o
verbo, depois veio do fundo
da paisagem e depositou-se em
movimento por toda a parte. apenas
a seguir se criaram os animais e
as plantas e toda a evolução das
espécies aconteceu.
O poema faz uma paródia do discurso da evolução científica
do homem, já que nesse breve texto a evolução das espécies
não segue do elemento mais simples ao mais complexo, nem
está na submissão às leis científicas de geração das espécies. É a
amizade o início de tudo. Daí a mim chamar a atenção os tantos
nomes próprios que aparecem nessa poesia, numa convocação à intimidade referencial do sujeito poético. É a partir de estar
em companhia que o mundo se faz. A consciência da existência
reside nesse “estar com” a partir do qual o mundo é. Nomeado
o processo fundamental de diferenciação das coisas do mundo
a partir da alteridade, surge uma ligeira confusão de identidade,
que pode inferir uma fase adolescente da vida, em “a
vida sexual do bruno” ou “facínoras” — “só somos diferentes
ligeiramente,/ por isso julgamos o mesmo do mundo e estamos
dispostos a/ irritar as regras antigas do desafio biológico”. Isso
explica-se porque na amizade a simpatia desencadeia a semelhança, às vezes mais forte do que as dos irmãos biológicos. A
enunciação poética alimenta-se da simulação daadolescência
para criar uma expressividade a partir da cúmplice descoberta
da sexualidade.
[...]
vou aproximar o meu corpo gravemente ao
dela e sei que do choque espiritual me
nascerá o exército de filhos com que
infestaremos os espaços de uma beleza
pura, desorganizada por ser genuína, intensa
[...]
(“facínoras”)
costumamos ir ao engate às
sereias, preferindo mesmo as
mais traçadas de peixe, tiramos as
pilas para fora e esperamos que mordam,
incautas, convencidas de que lhes
oferecemos um prazer descomprometido e
simples dos encontros à beira da
água. ouvimos os casais a gemer ali
perto, [...]
(“mil quilômetros além do corpo”)
Obedecendo à evidência das imagens, essa poética nos oferece “um prazer descomprometido”, ao mesmo tempo consciente
de uma sensibilidade formada através dos livros. A esta
evidência maravilhosa, sugestiva de um processo de criação
estética através da elaboração de uma ambiguidade divergente,
o poeta deu o nome de “pornografia erudita”, como se vê:
a virgindade da amélia
primeiro ano, curso de direito, univ. moderna, porto, noventa
aceita este livro, diria, mais bonito
do que os outros, encontrarás nele
imagens, sim, imagens que talvez te
supreendam, [...]
há uma pornografia erudita feita
para gente como nós, uma coisa assim entre
o querer fazer, a aflição espiritual
e o amor eterno
depois vem cá ter, juro-te que às
cinco em ponto da tarde não há ninguém
na casa dos meus pais.
Em tom casualíssimo, lembrando o de alguns dos poemas
de Mário Cesariny, como “De profundis amamus”, em que o
sujeito poético encontra um outro disponível a viver o enlace,
na rua, este poema apresenta vários elementos sobre os quais
venho tentando falar num processo de aprendizagem da sua
leitura. O poema explicita a qualidade erótica da poesia, o
que é o mesmo que dizer que a anula, pois a erótica situa-se
justamente no campo da sugestão. Ao desvelar as sutis artimanhas
da literatura que, através do uso de uma linguagem
metafórica, seduz o leitor, o sujeito poético desloca o implícito
para o campo obsceno do convite. “O querer fazer, a aflição
espiritual, o amor eterno” são pré-texto para um outro texto
de motivos expostos. A vocalização dessa poética, de busca
de uma descompressão de constrições internas da linguagem,
da fulgurante luz dos seres, sem censuras, pode constituir-se
com justeza como “a natureza revolucionária da felicidade”,
escapando à síntese dos fechamentos na harmonização dos
opostos. Descubro nas suas dissonâncias, nessa voz que se
lança à morte para que a palavra continue plural, uma poesia
que faz a literatura ser bem viva.
notas
1. Em www.ciberescritas.com/?p=237, acessado em 10 de junho de 2009. A
entrevista foi feita em 01 de agosto de 2008.
2. valter hugo mãe nasceu em 25 de setembro de 1971, na cidade angolana
Henrique de Carvalho, atual Saurimo. É escritor, editor, artista plástico,
compositor e dj. Passou a infância em Paços de Ferreira e em 1980 mudouse
para Vila do Conde. Licenciou-se em Direito e fez uma pós-graduação
em Literatura Portuguesa Moderna e Contemporânea. Foi diretor da Casa
de Cultura José Régio. Em 1999 fundou com Jorge Reis Sá a Quasi edições,
na qual publicou Mário Soares, Caetano Veloso, Adriana Calcanhotto,
António Ramos Rosa, Artur Cruzeiro Seixas, Adília Lopes, Ferreira Gullar,
Adolfo Luxúria Canibal e muitos outros. Em 2001, ainda na Quasi, codirige
a revista Apeadeiro. Após deixar a Quasi, funda a editora Objeto
Cardíaco, em 2006. Em 1999, o livro de poesia egon schiele, auto-retrato de
dupla encarnação, recebeu o Prêmio Almeida Garrett. Em 2007, ao romance
o remorso de baltasar serapião foi atribuído o Prêmio Literário José Saramago.
Durante a entrega do prêmio, em 26 de outubro de 2007, o nobel considerou
o livro um verdadeiro “tsunami literário”: “este livro é um tsunami, não no
sentido destrutivo, mas no da força. foi a primeira imagem que me veio à
cabeça quando o li. [...] quando foi publicado? e os sismógrafos não deram
por nada? oh, que terra insensível: este livro é uma revolução. tem de ser
lido, porque traz muito de novo e fertilizará a literatura. [...] às vezes, tive a
impressão de assistir a um novo parto da língua portugues.” Informações a
partir de: www.valterhugomae.com (acesso em 13 de maio de 2009).
3. BLANCHOT, Maurice. A conversa infinita: a palavra plural. Tradução:
39
Aurélio Guerra Neto. São Paulo: Editora Escuta, pp. 29 a 39, 2001.
4. Ibidem, pp. 139 a 142.
5. CHAN, Hou Seng. Prefácio. In: Divergence. Macao’s proposed artworks for
the 53rd Venice Biennale. Macau: Museu de Arte de Macau, 2009.
6. Transcrição de Sara Capelo para o jornal PUBLICO. PT on line, em 26 de
outubro de 2007. Acessado em http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.
aspx?id=1308823, dia 10 de junho de 2009.
7. mãe, valter hugo. nota do autor. in: folclore íntimo. Vila Nova de Famalicão:
Cosmorama edições, 2008. As citações dos poemas de v.h.m. que não
constam da atual antologia serão citadas a partir desta obra reunida, com
indicação do no. da página entre parêntesis.
8. Os poemas que não estão inseridos nesta antologia serão referidos a partir
da obra reunida, folclore íntimo. Cosmorama edições, 2008. Aqueles que não
fazem parte da obra reunida serão indicados em nota.
9. Em http://casadospoetas.blogs.sapo.pt/60827.html. Acessado em 10 de
junho de 2009.
10. CALVINO, Ítalo. Seis propostas para o próximo milênio. São Paulo:
Companhia das Letras, 1985.
11. MARTELO, Rosa Maria. Vidro do mesmo vidro. Tensões e deslocamentos na
poesia portuguesa depois de 1961. Porto: Campo das Letras, 2007.
12. PIMENTEL, Vieira.”Da ‘pré-presença a presença”. In: Leituras: Revista
da Biblioteca Nacional. Presenças de presença, Lisboa, n. 12-13, abril de 2003
- abril de 2004.
13. LOURENÇO, Eduardo. O labirinto da saudade. Psicanálise mítica do destino
português. Lisboa: Dom Quixote, 1978. No que diz respeito à Presença,
Eduardo Lourenço parece posicionar-se propositadamente de maneira
ambígua, seja na interrogação do seu texto mais conhecido, seja no ensaio
“Sobre Régio” (In: O Canto do Signo. Lisboa: editorial Presença, 1993) ao
afirmar que este não foi uma figura protagonista da modernidade, mas
sugerir que “o universo de Régio está longe e perto do de Pessoa. Está
igualmente aquém e além do mesmo”. Uma tal oscilação estabelece, ao
meu ver, uma desestabilização crítica para com a dimensão modernista da
poesia do próprio José Régio.
14. Em “Tensão e deslocamentos na poesia portuguesa depois de 1961” (In:
MARTELO, Rosa. Obra citada, pp. 11 a 51), Rosa Martelo refere um artigo
de Eduardo Lourenço (“Uma literatura desenvolta ou os filhos de Álvaro
de Campos”) em que este reconhece, na literatura produzida entre 1953 e
1963, os filhos de Álvaro de Campos. Esse reconhecimento seria um “reatar
do Modernismo numa linha em devir, na medida em que, de algum modo,
ele seria filialmente continuado naquilo que nesses anos se escrevia [...]”.
40
(Citado em MARTELO, Rosa, p. 17) No que diz respeito à poesia de valter
hugo mãe, observo que, de Álvaro de Campos, pode-se perceber o exílio
do bem estar, o tom prosaico, a intensidade sensorial, a sexualização das
palavras e a vivência dos choques a partir da ordem cotidiana.
15. Geralmente, a província é identificada como espaço próprio da tradição
enquanto que a cidade corresponde ao núcleo do novo, do progresso. Esse
pensamento é tão comum que poucos pararam para tentar compreender
como ele se formou. E ele se formou a partir da epistemologia racionalista
desenvolvida nos séculos anteriores, XVIII e XIX, em que a crítica modernista
o projetou, reiterando sempre o antagonismo entre o novo e a tradição a
partir da ideia de que a tradição significaria um “mesmo”, uma condição
imutável. Ou seja, nessa lógica do pensar, o espaço da província recai na
categoria do mesmo enquanto que o espaço da cidade significa a mudança,
sendo o lugar das rupturas por excelência. Mas esse “mesmo” aplicado
a lugares tidos como “da tradição” é um mitema, forjado a partir de um
conhecimento dualista, pois a complexidade está na cultura humana, não
em um lugar determinado. É constitutivo das culturas humanas em todas
as suas partes e não restringida a uma localidade física. A necessidade de
fixar o valor da tradição na categoria de um mesmo, buscando observá-lo
pela noção de repetição, não deixa de ser uma cegueira para a abertura à
descoberta que o próprio ato de repetir pode propiciar.
16. FERREIRA, António Manuel. “Luís Miguel Nava: até à raiz da alma”.
In: Diagonais das letras portuguesas contemporâneas, 2008, p. 126.
17. Ibidem, p. 125.
18. Romeo Castelucci junto com Claudia Castelucci e Chiara Guidi é
fundador da Sociedade Raffaello Sanzio. Referido como um iconoclasta, ele
mesmo diz que cria teatro sem sentido com impacto imediato. É encenador,
dançarino/performancer acostumado a trabalhar experiências corporais em
instalações muito visuais, auditivas e até olfativas, filiando-se ao teatro da
crueldade de Antonin Artaud. Entre os seus inúmeros trabalhos destacamse
“Inferno” e “Purgatório”, tendo sido o primeiro apresentado no festival
d’ Avignon, na França, em 2008.
19. Egon Schiele, pintor austríaco nascido em Viena, aluno de Gustav
Klint. Foi preso, acusado de pornografia. Representou seres humanos
transfigurados por sentimentos fortes e acrescentou à luxuriante vitalidade
da arte de Klint uma morbidez pungente. Produziu temas de marcada
expressão erótica e, mais tarde, no final da vida, de atormentada angústia
espiritual.
20. SARAIVA FILHO, Francisco. “Leituras sobre egon schiele. auto-retrato de
dupla-encarnação de valter hugo mãe.” Em http://www. germinaliteratura.
com.br/ literaturafsf_nov2006.htm
21. Ibidem, p. 31.
41
22. A este respeito ver o texto de Maria Jesus Ávila, “Nos limites da diferença”,
incluído no Catálogo da Exposição Surrealista em Lisboa, 1934 - 1951. Lisboa:
Museu do Chiado, 2001. A crítica de arte parte dos pressupostos de António
Monegal, En los limites de la diferencia. Madrid: Tecnos, 1990.
23. MARTELO, Rosa. “Opacidades, ou nem tanto (um exemplo)”. In: Obra
citada.
24. PAIXÃO, Fernando. “Em defesa do espaço lírico”. In: Novos estudos, n.
80. São Paulo: CEBRAP março de 2008, p. 207.
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